De velhas raizes minhas,

umas vivas, outras mortas,

retirei ervas daninhas

p’ra poder abrir mais portas.

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

REFLEXÃO SOBRE A MINHA INFÂNCIA



É-me difícil escrever sobre a minha infância. Quando o faço, debato-me sempre com problemas de consciência, pelo receio de deturpar a realidade dos factos que, por vezes, aos olhos duma criança, traem a realidade. Além disso, posso não recordar, com clareza, os factos que estariam por trás de certos episódios que me marcaram. Contudo, apesar de ter ficado com o peso desses factos que me magoaram, relativamente, por exemplo, a atitudes do meu Pai, reconheço, sem sombra de qualquer dúvida, que tudo o que fez por mim reflectia um grande amor e uma convicção de que estaria a fazer o que, no seu entender, estaria certo. Claro que este seu entender deverá - quando o faço - ser julgado no contexto da época Salazarista em que vivi nesse tempo, na forma como ele próprio foi educado, etc., etc. Mas eu prefiro não ir por essa estrada, cuja porta procurarei manter cerrada, pois o que conta, para mim, é o grande amor que ele tinha pelos seus filhos. Optarei, portanto, por ir referindo pequenos episódios vividos, sem a intenção de culpabilizá-lo, a despeito do quanto contribuíram para ter tomado algumas decisões que marcaram a minha vida para sempre.

O que escrevi, a partir dos meus 13 anos, reflectia já uma certa tristeza, uma tendência para a melancolia. Mas isso não era o que eu desejava transparecesse de mim, porque estava em perfeita contradição com a minha simpatia, a minha alegria e a forma como vivia, mesmo desde muito pequena, o meu papel de "palhacinha" da família. Bem no fundo daquele ser pequenino, estava uma alma com uma sensibilidade enorme, mas com uma grande tristeza silenciosa. Tenho a impressão de que parte dessa melancolia nasceu nos dias em que faleceram, com uma diferença de seis meses, uma prima, com dez anos de idade,  e o meu querido avô, com 56 anos, que eu adorava profundamente. Ele foi um poeta que, lamentavelmente, nunca publicou um livro, mas deliciava-me ouvi-lo, sentada no seu colo, declamar o que ia escrevendo.


Costumo dizer que fui a criança que mais amei na vida, até ser mãe, contudo, vivi uma infância de medo e de disciplina. Medo, sobretudo, da professora de instrução primária, a quem o meu pai pôs o cognome de "Doninha" e a qual defendia a teoria de Salazar, segundo a qual, "umas palmadinhas dadas a tempo...." não faziam mal à criança ... Devem ter-lhe dado poucas!...

Na parede da minha sala de aula, na escola primária, mesmo em frente da minha secretária estavam, dependuradas, a cruz de Cristo e as fotografias de Salazar e do Marechal Carmona. Eu era muito pequena, mas aquelas representações simbólicas dum tempo austero tinham, na minha sensibilidade, o peso da disciplina de que era uma vítima perfeita. Este cenário, vivido durante a minha infância - que talvez eu conotasse, também, com os minutos de silêncio obrigatório que meu Pai nos impunha para poder ouvir o noticiário das 13h, em tempos agitados politicamente - era pesado, muito pesado. Tão pesado quanto a expressão grave daqueles dois rostos, para os quais evitava olhar. Talvez por isto, há regras que nunca segui na educação dos meus filhos, por considerá-las demasiado rígidas. Elas fizeram de mim uma criança medrosa. Passava noites com um medo atroz do desconhecido, das sombras, da noite. Só conseguia adormecer se ouvisse a minha mãe a arrumar a cozinha ou a costurar, mas muitas vezes acordava de noite a tremer e os meus Pais tinham de levar-me para a cama deles, pelo tanto que tremia. Medo também porque, no dia seguinte, teria de regressar novamente à escola onde "a doninha" era uma ameaça à minha serenidade e à das pequenitas minhas colegas.


Da minha adolescência faz parte um manancial de aventuras onde sofri tremendas derrotas, intercaladas com outras de imprevistas "glórias" e surpresas. Talvez por estar marcada pela infância que descrevi, tive muitos momentos de incertezas, pelos meus medos, e de consequentes desesperos os quais tentava rejeitar porque, a minha essência, era a duma jovem alegre e positiva, que muito cedo começou a revelar uma certa predisposição para fugir dos 'dramas', não só pela minha grande fragilidade emocional, como pelo meu acreditar que a vida é bela demais para vivê-la triste.
Os poemas que escrevi, durante a minha adolescêcia, são coisas da idade da "gaveta", ou do "armário", como é muitas vezes chamada. A sua importância limita-se ao facto de manterem vivas recordações que ainda hoje me deliciam, amores de adolescente, sentimentos enfatizados que a muitos farão rir, mas que a mim fazem reviver tempos de muito sofrimento, por um amor proibido. A 'pretensão' posta nos poemas que escrevia, em forma de soneto, era resultante do muito que lia escrito nesse estilo, mas a sua carga dramática, a pureza do amor que os motiva, a mágoa que inspira o facto desse amor ser proíbido pelos pais de ambos ou até mal interpretado por mim, nesse tempo, são detalhes que, na altura, pesavam-me muito e, consequentemente, não pensando nunca publicar fosse o que fosse, representam simples "desabafos" a meio da noite, ou num qualquer momento de sofrimento.  Mas eu tinha apenas 15 anos e já escrevia sôbre esse amor desde os 13. Foi mesmo amor, amor verdadeiro, o que senti por alguém que desconhecia amar-me,também, nessa altura. E escrevia, escrevia, até altas horas da noite, para que no dia seguinte pudesse trocar com ele bilhetinhos clandestinos, às escondidas dos nossos pais que viravam terramoto, não fosse isso afectar os nossos estudos. E escrevia ...
DESILUSÃO

Grande é o mistério que envolve o meu segredo
pois, mesmo eu, já não sei se o compreendo.
Minha vida, transformada num degredo,
é enorme confusão que não entendo.

Da minha dor culparei somente a vida,
pois cobrindo-a com o véu da ilusão,
escondi atrás de si a falsa lida
em que andava, ocupada, a ingratidão.

(vá-se lá saber porque escrevi isto....)

E, ao caír esse véu que faz sofrer
todo aquele que confia em seu poder,
fazendo dele um jardim para sonhar ...

acabei por destruir minha ventura,
não vendo mais o valor, nem a ternura,
que tem um coração que sabe amar!

Setembro de 1953

Como referi, nota-se aqui a influência da minha leitura de sonetos, que devorava com um interesse pouco comum na minha idade. Aos 13 anos eu já gostava de ler Camões e a partir dessa idade, sempre que me era pedido, na escola, para fazer uma composição, essa composição era feita em verso. O que escrevia, em forma de poesia, reflectia uma carga de grande tristeza, acredito que em consequência duma adolescência, de certo modo mal vivida. Talvez por isso, passei a minha vida em busca do caminho certo, duma estrada adequada ao comprimento dos meus passos, mas o que mais encontrei foram atalhos cheios de obstáculos, que procurei melhorar tanto quanto a minha vida mo permitiu, para que o caminho a percorrer não fosse tão doloroso.




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