De velhas raizes minhas,

umas vivas, outras mortas,

retirei ervas daninhas

p’ra poder abrir mais portas.


20120429

ALIMENTO... QUE TORMENTO!

ALIMENTO... QUE TORMENTO!

Hoje vou aqui escrever
sobre uma preocupação,
que está na minha cabeça:
quero passar a comer
aquilo que me apeteça!
Vem um diz, dum alimento,
que é muito bom p’rá saúde,
mas passado um tempo, alguém,
diz-nos, com conhecimento,
que afinal, não nos faz bem!

Estou farta desta incerteza,
do que era e já não é,
do que é, que antes não era.
Desisto, na incerteza.
Tudo isto me exaspera.
Passarei a respeitar
a vontade que sentir
disto, ou daquilo, comer.
Afinal, se bem pensar...
todos temos que morrer.

Se bem que ... melhor pensando...
se me dá uma camoeca,
e dou aos outros trabalho...
poderei ficar penando
e, por isso, me baralho.
Pode tornar-se um sarilho!
Passo a vida a confrontar-me
com coisas incompatíveis,
em tabelas que hoje empilho,
porque sei serem falíveis.

Se houver alguém que me diga,
com segurança credível,
o que faz bem à saúde,
sem vir-me com a cantiga
que depende da atitude
perante cada alimento...
eu mando-a dar uma curva.
Comigo... não funciona.
Continuo sempre magra
por muita coisa que coma...

Maria Letra
29/04/2012

20120331

MAR PAIXÃO

MAR PAIXÃO

Mar extenso, mar profundo,
tu és seis vezes maior
que o feldspato,
e enches de luto o mundo
quando sem pena, sem dor,
mais parecendo um vil reato,
tu investes sobre a Terra,
levando na tua frente
tantas vidas.
Com violência que aterra
- porque a morte to consente –
deixas no mundo, feridas,
famílias que em vão procuram
aqueles que tu engoliste
sem piedade,
cavando males que torturam
porque, os que não destruiste,
vemos morrer de saudade.
Mas tu és vida também.
Continuas a espalhar
sedes de ti, mil paixões,
prazeres que nos fazem bem.
Tu nos provocas, ó mar,
um mundo de sensações.
Presente na nossa História,
em tudo o que é descoberta
de outras raças que temos,
tu estás na nossa memória
em cada feito que lemos.


Maria Letra
04/03/2012
Fotografia de: Lúcia Neto

20120328

NO REINO DA VAIDADE


Nesse trono em que estás,
enfatuada,
com a mente vazia
de tudo
e cheia de nada...,
és soberana sem paz.
Tu, és fantasia
no silêncio mudo
duma lenda.
Tu és a hipocrisia
e a mentira.
Tu és um erro sem emenda.
A ambição que em ti gira,
atacada de cegueira,
lança e relança
montes de poeira
aos olhos de quem
é cego, também.
Vives num inferno de vaidade
porque não conseguiste,
nem por escassos momentos,
perceber,
com simplicidade,
o que quer dizer
SIMPLICIDADE!

Maria Letra
Imagem da net

20120324

FOME OU MISÉRIA?

Nas tuas mãos rugosas,
calejadas,
vejo mil sonhos por realizar,
mil promessas amorosas,
impensadas,
mil tormentos enfadonhos,
a magoar.

Um quadro sem vida
e sem cor,
e uma vontade teimosa,
insaciável,
de não te dares por vencida
nessa dor cuja causa,
vergonhosa,
é intragável.

Gostarias de ultrapassar
 algo que te morde,
te remorde,
te consome cada artéria,
a que muitos chamam Fome,
outros dizem ser Miséria!

Maria Letra
24/03/2012

20120320

VERDADES MENTIDAS

A FOME E A FARTURA

Perguntaram à fartura
quem foi que a trouxe ao mundo;
respondeu, toda ternura,
- Foi um ser muito fecundo.

- Gostava de ser seu filho...
- comentou quem perguntou -
Estou metido num sarilho!
Não sei quem me atraiçoou.

Perdi tudo, tenho fome,
não sei mais o que fazer.
Meu nada ter me consome,
sou pobre até no viver.

A fartura, muito cheia,
retorquiu-lhe com afecto:
- Não tens nenhum “pé de meia”?
Viraste um ser abjecto!

Pede emprego no governo...,
vais ver o que é viver bem.
Deixas de estar nesse inferno,
vais viver para Belém.

Estarás à grande, à francesa,
numa casa apalaçada.
Terás sempre cheia a mesa,
e toda a roupa lavada!

Maria Letra

20/03/2012

20120314

A POESIA E EU

 Me escondo na poesia,
nas palavras musicadas,
nas rimas que vou criando,
nas verdades abafadas
entre versos,  vagueando...

Me acalmo na poesia,
comunicando, vivendo,
expressando aquilo que sinto,
quantas vezes não sabendo
se são verdades, se minto.

Maria Letra
2012-03-14

20120227

O MEU RODOPIAR


Rodopiando seis vezes,
em rodopio magoado,
seis vezes eu me abanei,
girando p’ra outro lado.

Vivi anos assustada,
numa escola onde a maldade
da professora, hoje morta,
não gerou em mim saudade.

Adolescente inquieta,
amante de viajar,
lutei pelo sonho que tinha
e fui p’ra Londres estudar.

Se casei mal, não importa.
Meus filhos são meus amores.
Ensinaram-me que a vida
é feita de muitas cores.

Depois de ter posto fim
a um casamento falhado,
fui para Londres viver,
dizendo adeus ao Passado.

Numa luta sem descanso,
mil perdas quis anular,
e enfiei-me num campo
de mais perder que ganhar.

Condenada a emigrar
do meu País, tão bonito,
encontrei a paz que queria
no meu ser em conflito.

Maria Letra
27/02/2012