De velhas raizes minhas,

umas vivas, outras mortas,

retirei ervas daninhas

p’ra poder abrir mais portas.


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20140127

DETESTO TER RAZÃO QUANDO NÃO ESTOU DE ACORDO COM CERTAS TEORIAS


Convido, quem ainda não conhece a notícia, a ler aqui, mais um escândalo de grande envergadura e que nos leva a questionar como será possível que sejamos tão ingénuos que não nos apercebamos que estão constantemente a enfiarem-nos no cérebro teorias inventadas, muitas vezes através duma arte manhosa, a que chamamos "artimanhas para engordar o património financeiro de "bestas que não têm nem pudor, nem amor ao próximo".

Este artigo, que acabo de conhecer, refere-se a um assunto muito delicado..., i.e., à educação dos nossos pequeninos, artigo este que - quem sabe o que tenho dito sobre este assunto - veio de encontro às dúvidas que sempre tive neste campo. 

A educação da criança exige tanto de nós! Muito sacrifício e muita entrega mas, sobretudo, muita atenção. Quando o mau comportamento duma criança ultrapassa, de longe, a nossa capacidade de control do mesmo, deveremos reflectir, em primeiro lugar, sobre eventuais razões para que tal aconteça e perguntarmo-nos se a educação que estamos a dar-lhe será a correcta. É necessária, da parte dos pais, muita firmeza, paralelamente a tanto amor..., quando educam os seus filhos. O Amor e a Firmeza devem interligar-se constantemente, na educação a dar à criança, acabando esta por compreender o significado das duas, aceitando-as.

Nem tudo o que nos parece ser, é-o, realmente, e muitas vezes vêm com teorias que me assustam por chegarem mesmo, não só a agravar o problema da criança, por tratamentos inadequados, como também a 'desviar' uma correcta posição dos pais, comprometendo a sua adequada actuação, no momento próprio. E depois, na grande maioria dos casos, são os pais os directíssimos responsáveis pelos maus comportamentos dos filhos, que tantos dizem, ou diziam, serem esses comportamentos devidos a um "distúrbio" a que chamam, ou chamavam..., TDAH (ou ADHD)..., quiçá para desculpabilizarem-se...

A nossa culpa não estará, eventualmente,
1.   no quanto estaremos a exagerar ao satisfazermos todos os caprichos das nossas crianças,    oferecendo-lhes os mais sofisticados meios de diversão, tais como jogos para computador, playstation, Wii, Nintendo, etc. e tal?
2.  no quanto as prejudicamos quando não damos a devida importância à correcta organização dos seus tempos livres?
3.  no quanto estaremos a prejudicar o seu equilíbrio emocional, pelo excessivo tempo que perdem em jogos de competição os quais, na sua maioria, incitam à violência?
4.   no quanto as prejudicamos deixando que usem o seu computador (tantas vezes para verem ou jogarem o que não devem, por ausência de vigilância) ou que alimentem a sua vontade de serem sempre vencedores em jogos de competição tão agressivos, quanto impróprios,  em vez de as acompanharmos em salutares brincadeiras ao ar livre?
5.  no facto de muitos educadores permitirem que os seus filhos comam as suas refeições em frente do computador, ou a jogarem os referidos jogos, o que - como é natural - prejudica-os altamente?
etc., etc...

Gostaria de saber se os herdeiros de Leon Eisenberg, psiquiatra e educador infantil que inventou o TDAH, (ou ADHD),  Transtorno de Deficit de Atenção com Hiperactividade, serão dignos merecedores da fortuna que, eventualmente, ter-lhes-á deixado, herança essa que ele teria "engordado" ao longo dos anos em que a sua teoria não passou duma "invenção" com esse fim: enriquecer à custa dessa mesma falsa teoria (e quem sabe de outras do mesmo calibre), que levou inocentes pais a acreditarem nele. Essa fortuna não seria suficiente, SEM DÚVIDA NENHUMA, para compensar, moralmente, aqueles que ele prejudicou psicológica e fisicamente.

São homens como Leon Eisenberg e uma fila enormíssima de outros - que não caberia aqui referir - que levam tantas pessoas a acreditarem neles sem reflectirem, primeiro, sobre a veracidade das suas teorias, por desconhecimento óbvio.

Para quê mais palavras? A minha família saberá bem que sempre me opus à teoria dele, quando conversávamos sobre determinados comportamentos de crianças... Amo-as demasiado, para confiar cegamente em algumas das afirmações tão peremptórias quanto maléficas...

Deixo duas simples perguntas no ar:
a)  Será que todos os jovens que programam virem a ser pais, alguma vez se perguntam se estarão dispostos a sacrificar o seu tempo, dando à criança a atenção que lhes será exigida por dever? Não menosprezem este ponto importantíssimo...
b)    Será que estarão preparados para proporcionarem aos seus filhos ar livre, em vez de, por comodismo ou franca falta de tempo, preferirem manter-se em casa, alimentando neles o hábito, que passará a vício como qualquer droga, de fazer aquilo que, mais tarde ou mais cedo, acabarão por exigir se lhes forem recusadas..., gritando e massacrando, até que essas mesmas vontades sejam satisfeitas?
­


De que servirá a alguns pais irem ao gabinete dum psicólogo para receberem conselhos, se eles mesmos desconhecerem o que são regras nas suas próprias casas?


Maria Letra




20110617

O "VELHO" E O "JOVEM"



Neste simples grupo de rosas, o “velho” e o “novo” coexistem até que a cada qual, tenha chegado o seu fim. É pena que, nos seres humanos, essa convivência nem sempre seja a ideal, exactamente porque o “jovem” não pensa que um dia será “velho” também …

Neste mundo em turbilhão,
Os “jovens” maltratam “velhos”
Sem pensar que, se viverem,
Um dia, “velhos” serão.

20091211

REFLEXÃO SOBRE A MINHA INFÂNCIA



É-me difícil escrever sobre a minha infância. Quando o faço, debato-me sempre com problemas de consciência, pelo receio de deturpar a realidade dos factos que por vezes, aos olhos duma criança, tomam uma dimensão muito superior. Além disso, posso não recordar, com clareza, os factos que estariam por trás de certos episódios que me marcaram. Contudo, apesar de ter ficado com o peso desses factos que me magoaram relativamente, por exemplo, a atitudes do meu Pai, reconheço, sem sombra de qualquer dúvida, que tudo o que fez por mim reflectia um grande amor e uma forte convicção de que estaria a fazer o que, no seu entender, estaria certo. Claro que este seu endender deveria - se o fizesse - ser julgado no contexto da época Salazarista em que vivi a minha infância, na forma como ele próprio foi educado, etc., etc. Mas eu prefiro não ir por esta estrada, cuja entrada procurarei manter cerrada, pois o que conta, para mim, é o grande amor que ele tinha pelos seus filhos. Optarei, portanto, por ir referindo pequenos episódios vividos, sem a intenção crítica de julgá-lo, pois não estão, na minha memória, quaisquer actos que o merecessem. Mentiria, porém, se escrevesse aqui que não as tenho.

O que escrevia, já na infância reflectia uma certa tristeza, uma tendência para a melancolia. Mas isso não era o que eu desejava transparecesse de mim, porque estava em perfeita contradição com a minha simpatia, a minha alegria e a forma como vivia,
Já em criança, o meu papel de "palhacinha" da família. Bem no fundo daquele ser pequenino, estava uma grande alma, duma sensibilidade enorme, mas com muita tristeza à mistura. Tenho a impressão que parte dessa melancolia nasceu nos dias em que faleceram, com uma diferença de seis meses, uma priminha, com dez de idade – à direita  na foto - e o meu querido avô, com 56 anos.


Costumo dizer que fui a criança que mais amei na vida até ser mãe, contudo, vivi uma infância de medo e de disciplina. Medo, sobretudo, da professora de instrução primária, a quem o meu pai pôs o cognome de "Doninha" e a qual defendia a teoria de Salazar segundo a qual "umas palmadinhas dadas a tempo...." não faziam mal à criança ... Devem ter-lhe dado poucas!...
As fotografias de Salazar e do Marechal Carmona estavam dependuradas na parede da minha sala de aula, na escola primária, mesmo em frente da minha secretária. Eu era muito pequena, mas aquelas duas figuras tinham, na minha sensibilidade, o peso da disciplina de que era uma vítima perfeita. O cenário vivido na escola, durante a minha infância, era pesado, muito pesado. Tão pesado quanto a expressão grave daqueles dois rostos, para os quais evitava olhar. Talvez por isto, há regras que nunca segui na educação dos meus filhos, por considerá-las demasiado rígidas. Elas fizeram de mim uma criança medrosa. Passava noites com um medo atroz do desconhecido, das sombras, da noite. Só conseguia adormecer se ouvisse a minha mãe a arrumar a cozinha ou a costurar, mas muitas vezes acordava de noite a tremer e os meus Pais tinham de levar-me para a cama deles, tal era o meu estado psicológico. Medo porque, no dia seguinte, teria de regressar novamente à escola onde "a doninha" era uma ameaça à minha serenidade e à das pequenitas minhas colegas.

A minha adolescência dava para escrever um longo livro. Se teria interesse lê-lo, não sei dizer, mas que ocupa uma grande parte das minhas recordações mais bonitas, apesar de tudo, isso posso afirmar. Todavia, talvez por estar marcada pela infância que descrevi, também teve muitos momentos de incertezas, de medos e de desesperos que eu tentava rejeitar porque, a minha essência, era a duma criança alegre e positiva, que tentava sempre sair dos 'dramas' através do meu acreditar que a vida é bela demais para vivê-la triste.
Os poemas que escrevi, durante a minha adolescêcia, são coisinhas da idade da "gaveta", ou do "armário", como lhe chamam. A sua importância limita-se ao facto de manterem vivas recordações que ainda hoje me deliciam, amores de adolescente, sentimentos enfatizados que a muitos farão rir, mas que a mim fazem reviver tempos de muito sofrimento, por um amor proibido. A 'pretensão' posta nos poemas que escrevia, em forma de soneto, a sua carga dramática, a pureza desse amor, a mágoa que inspira o facto de ser proíbido pelos pais de ambos ou até mal interpretado por mim, nesse tempo, são detalhes que, na altura, pesaram muito. Mas foi mesmo amor, amor verdadeiro, o que senti por alguém que desconhecia amar-me também. E escrevia, escrevia, até altas horas da noite, para que no dia seguinte pudesse trocar com ele esses bilhetinhos clandestinos, às escondidas dos nossos pais que viravam terramoto, não fossem os estudos acabar afectados. E escrevia ...

DESILUSÃO

Grande é o mistério que envolve o meu segredo
Pois, mesmo eu, já não sei se o compreendo.
Minha vida, transformada num degredo,
É enorme confusão que não entendo.

Da minha dor culparei somente a vida,
Pois cobrindo-a com o véu da ilusão,
Escondi atrás de si a falsa lida
Em que andava, ocupada, a ingratidão.

(vá-se lá saber porque escrevi isto....)

E, ao caír esse véu que faz sofrer
Todo aquele que confia em seu poder,
Fazendo dele um jardim para sonhar ...

Acabei por destruir minha ventura,
Não vendo mais o valor, nem a ternura,
Que tem um coração que sabe amar!


Setembro de 1953


Nota-se aqui a influência da minha leitura de sonetos, que devorava com um interesse pouco comum na minha idade. Aos 13 anos eu já adorava ler Camões e a partir dessa idade, sempre que me era pedido, na escola, para fazer uma composição, essa composição era feita em verso. O que escrevia, em forma de poesia, reflectia uma carga de grande tristeza, acredito que em consequência duma adolescência mal vivida. Talvez por isso, passei a minha vida em busca do caminho certo, duma estrada adequada ao comprimento dos meus passos, mas o que mais encontrei foram atalhos cheios de obstáculos, que procurei melhorar tanto quanto a minha vida me permitiu, para que o caminho a percorrer não fosse tão doloroso.


Maria Letr@