De velhas raizes minhas,

umas vivas, outras mortas,

retirei ervas daninhas

p’ra poder abrir mais portas.

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terça-feira, 8 de abril de 2014

OPÇÕES


OPÇÕES

Luísa foi mãe de 8 filhos, todos saudáveis. Vivia confortavelmente, embora não fosse proprietária de coisa alguma, para além de si mesma. O marido, de quem se havia separado pouco depois do nascimento do seu oitavo filho, morreu novo, vítima de acidente de aviação. Ela nunca voltou a casar, pois ficou com uma missão pesada demais, para voltar a dedicar-se a outra.

Formada em engenharia civil, Luísa era uma mulher de grande determinação, a quem nunca faltou tenacidade e coragem para levar a cabo a missão que propôs a si mesma: dar a cada um dos seus 8 filhos, um curso superior. Todos eles se formaram em diferentes áreas, com muito sucesso. O mais novo, o João, provavelmente porque foi o que mais sofreu a superioridade do “poder” dos que nascem primeiro, talvez sentisse a necessidade de sarar “certas feridas”, e optou pelo curso de enfermagem. Ele sempre se revelou o menos vocacionado para grandes objectivos, a vários níveis, o que provocou muitos conflitos entre ele e a mãe, pois ela entendia que ser enfermeiro, não tinha o valor de outros cursos. Mas era um filho maravilhoso, dócil e generoso e o curso de enfermagem não poria em causa, nunca, a sua capacidade profissional. Bastava que fosse feito tomando em consideração dois princípios que a mãe acabou por sentir resigná-la: vocação e aplicação. Mas não foi fácil convencê-la na altura, de que, não obstante a força destes dois pontos importantes, eles poderiam vir a revelar-se não suficientemente fortes ao ponto de permitir que o filho mais novo viesse a usufruir duma vida desafogada. Naquele tempo, ser enfermeiro não tinha o prestígio que tem hoje.

Luísa sempre enfrentou as suas dificuldades sabendo esperar, com muita resignação, que “cada maré alta acalmasse”, na esperança de que, mais tarde e de cabeça fria, cada um decidisse o que mais lhe conviria, não só pessoalmente mas, também, em prol da estabilidade familiar. Era muitíssimo inteligente e ponderada, mas isso não lhe evitou certos períodos que teve de ultrapassar, não dando nunca a conhecer aos filhos, as suas dificuldades. Ela sabia bem que, se o fizesse, eles poderiam, eventualmente, querer desistir dos seus cursos para irem trabalhar. Isso seria a última coisa que teria de aceitar. Ela tinha consciência, por experiência, de que o facto de ter tirado o seu curso, permitiu-lhe fazer frente às consequências que a morte prematura de seu marido causou à sua vida. Era, no fundo, uma mulher consciente e, sobretudo, muito perseverante. Paralelamente ao bom ordenado que tinha, pela sua grande competência como engenheira civil, teve a recompensa de 4 dos seus filhos terem sido beneficiados com bolsas de estudo, o que lhes permitiu irem estudar para fora do país. Eles sempre tiveram a sensibilidade de perceber que era necessário aplicarem-se e, consequentemente, ajudarem a mãe, dando o meu melhor para atingirem o objectivo que ela propôs a si mesma, para eles: uma boa formação.

João não queria casar. Talvez tivesse consciência, também, de que não estaria à altura de garantir um futuro estável à sua futura família, se um dia viesse a casar. O exemplo que a mãe lhe deu era demasiado forte, tendo-lhe criado a convicção de que, para casar, deveria estar à altura de garantir-lhe a referida estabilidade económica… e não só. Por isso mesmo, sempre viveu com a mãe. Os irmãos foram casando, foram abandonando o lar de infância e foram-se libertando da ajuda da mãe, que vivia agora feliz, sempre visitada pelos filhos e pelos 14 netos com que foi presenteada. Sim, porque os netos eram, a partir do dia em que deixou de trabalhar, a grande força que mantinha nela um enorme apego à vida.

Os anos foram passando e Luísa começou a revelar sintomas preocupantes de perda de memória e de uma certa indiferença em relação a coisas que, anteriormente, eram-lhe tão importantes. Isso começou a acentuar-se de tal forma, que o temível diagnóstico dado pelo seu médico, não surpreendeu os filhos: a mãe sofria da doença de Alzheimer. Face a essa realidade, eles tinham consciência de que sua mãe iria precisar, cada vez mais, de assistência permanente, uma assistência que eles, naquele momento, não estavam à altura de assumir, sob pena de perderem o controlo da situação que, havia alguns anos e com tanto sacrifício, tinham conseguido. Não se tratava apenas duma estabilidade a nível de trabalho. Tratava-se de outras responsabilidades que cobriam os seus tempos livres, sendo a mais importante a de dar aos filhos o que a mãe sempre soube dar-lhes, ajudando-os nas responsabilidades académicas e na gerência dos seus tempos livres. A educação dum jovem cada vez mais exige a participação consistente dos pais. Assim sendo, havia que tomar decisões muito importantes, uma vez que colocar a mãe numa instituição para pessoas idosas, privada ou não, estava em último lugar nas suas várias opções, opções essas que queriam analisar tendo em conta vários factores, sendo o mais importante o do valor que a mãe representava para eles e que era indiscutível. Ao mesmo tempo, para considerarem a hipótese com mais força e também a mais desejada por todos, que era a de serem eles mesmos a assistirem a mãe na sua doença, precisariam de saber em que medida essa assistência poderia ser dada e o quadro era "negro". Nenhum deles tinha uma formação na área de medicina. Só o irmão mais novo estaria, de certa forma, capaz de olhar pela mãe. Para além de tudo o que pudessem vir a decidir, todos os irmãos tinham consciência de que Luísa tinha sido sempre aquela mãe que tantos sacrifícios fez e que tão difíceis momentos viveu, para que estivessem tão bem, em todos os sentidos. Merecia tudo o que pudesse dar cada um para, em dias alternados, poderem estar presentes.

Com o passar do tempo, a doença de Luísa foi agravando e começaram a preocupar-se com o irmão mais novo, pois eles sabiam do tanto que estava já a menosprezar na sua vida profissional, a favor do bem-estar da mãe. Eles sentiam que ele não iria aguentar com tudo, pois sua mãe necessitava, cada vez mais, de cuidados permanentes. Só haveria, aparentemente, uma solução: internar a mãe numa instituição onde fosse bem tratada. Contudo, para João havia uma coisa de que ele não prescindiria: da presença de sua mãe, enquanto viva. Ele tinha perfeita consciência de que, independentemente das opções que fez, a nível de formação académica, sua mãe teria sacrificado muitas das suas aspirações para poder, ela própria, abrir-lhe a estrada que melhor o conduzisse à situação em que se encontravam os seus irmãos. Tinha consciência perfeita de que sua mãe sempre soube estar presente nas suas decisões, não o forçando a nada, independentemente de todas as chamadas de atenção para uma realidade que era sua, muito pessoal, e que ele reconheceu sempre ser a que melhor lhe conviria. Vá-se lá saber como tinha disso a percepção… Provavelmente, sendo o oitavo, nasceu fora do projecto familiar…. e talvez pensasse que a sua missão, para além da de filho, seria a de provar que não tinha vindo ao mundo por acaso.  Por tudo isso, teria achado que deveria tomar a decisão que o seu coração andava a ditar-lhe havia já algum tempo e acabou por deixar o hospital onde trabalhava para dedicar-se, inteiramente, à mãe.

Muitas vezes insurgimo-nos contra situações que, mais tarde, vêm a provar-nos não ter sido por acaso que optámos por elas, sem que disso tenhamos a percepção.


Luísa morreu rodeada do carinho de toda a família e foi exactamente o filho mais novo, aquele filho com quem nunca esteve de acordo sobre o curso a seguir, que veio a provar, a ela e aos irmãos, ser o que mais conviria seguisse, pois foi esse mesmo curso que lhe permitiu ajudar sua mãe no pior momento da sua vida, até à sua morte.

Depois de Luísa falecer, João completou o curso de medicina com uma média de que poderia orgulhar-se: 19 valores. Acabou por casar-se e vir a ser pai de quatro meninas e um rapaz que seriam hoje o orgulho da sua avó Luísa, que não conheceram, mas que, onde quer que esteja, se estiver, sentir-se-á feliz.

Não menosprezemos as decisões de cada um. A razão por que, muitas vezes, optamos por seguir uma estrada que, aos olhos dos outros, parece errada, pode permanecer oculta até ao dia em que um programa, que nos transcende, venha a confirmar ter sido a que nos convinha. Há que saber esperar por resultados que podem demorar anos a surgir.
Maria Letra
2014-04-08



UM GRANDE AMOR


Quando tinha 13 anos, apaixonei-me, seriamente, por um amiguinho. Era fresca! Quando meu Pai descobriu, “caiu o Carmo e a Trindade” lá em casa. Passei a sofrer todo o tipo de medidas de precaução para que essa paixão não viesse a tornar-se uma forte razão para levar uma boa sova. Pudera! Uma pirralha de 13 anos, enamorada dum “pivete” (passe o significado)... Mas ele era tão lindo! Era o meu Gary Cooper da época...

E fazia eu um trajecto de uns bons 5kms a pé, com uma fiel amiguinha, hoje minha prima por afinidade, só para que pudessemos trocar os nossos bilhetinhos de Amor, antes de ir para a escola. Sim, porque se usasse meio de transporte, não teria forma de passar pela Praça do Marquês, no Porto, onde ele estaria à minha espera. Que inocentes! Acreditem, éramos mesmo inocentes...

Foi também nessa idade que começou o meu amor pela poesia. Nessa altura, eu já sabia alguns cantos dos Lusíadas, de Luís de Camões, tal era a minha paixão. E escrevia..., escrevia..., quantas vezes até de madrugada. Que loucura! E foi numa dessas noites que escrevi um soneto dedicado ao nosso grande Amor, e que foi publicado no jornal “O Primeiro de Janeiro”. Meu Pai, que andava de olhos bem abertos, em cima de nós, nunca comentou o teor do poema. Hoje indago-me porquê. Nele eu revelava o segredo do nosso Amor um pelo outro e a traição de ter sido descoberta, “apaixonada”. Mas meu Pai venceu. Mais tarde o pai dele mandou-o estudar para a Alemanha e o meu autorizou que eu fosse estudar para Londres. Já tinha, nessa altura, 22 anos. Mas aquele Amor continuava vivo em nós. A nossa partida determinou o final duma esperança, mas não do Amor que nos unia. Mas houve um grande “muro” que me obrigou a saltar para outro lado. Eu não devia namorar com ele, sob pena de causar o divórcio dos meus pais. Foi este o poema que escrevi e que lhe dediquei:

Grande é o mistério que envolve o meu segredo
pois, mesmo eu, já nem sei se o compreendo.
Minha vida transformada num degredo,
é enorme confusão que não entendo.

Da minha dor culparei somente a vida,
pois cobrindo-a com o véu da ilusão,
escondi-me atrás de si, na falsa lida
em que andava, disfarçada, sem perdão.

E, ao cair esse véu que faz sofrer
todo aquele que confiar em seu poder,
fazendo dele um jardim para sonhar...

acabei por destruir minha ventura,
não vendo mais o valor, nem a ternura,
que possui um coração que quer amar!

Maria Letra
(escrito aos 13 anos de idade)

Um dia ele insistiu comigo que o Amor dele era maior do que o meu. Pudera! Eu tinha cá um respeito ao meu Pai... Sim, porque ele não era pera doce (mas era tão meu amigo...) Então eu escrevi-lhe, num dos meus inúmeros bilhetinhos, que ele nunca quis devolver-me:

Se tu te servires duma balança,
p´ra com cuidado pesares nossa paixão,
verás tombar, com grande diferença,
o prato que contém meu coração!

Ah pois é!!! Dizia eu...

Maria Letra
2014-04-08

terça-feira, 1 de abril de 2014